Menos negócios, mais dinheiro: o que a estatística de M&A não está vendo

Por David Andrade Silva, fundador da Andrade Silva Advogados.


Conversei com o Times Brasil sobre o desempenho do mercado brasileiro de fusões e aquisições no primeiro semestre de 2026[1]. Tempo de televisão é curto e alguns pontos ficaram pela metade. Este texto os desenvolve.

O ponto de partida é um par de números que, à primeira vista, não conversa entre si. O país registrou 593 operações no semestre, queda de 35,3% na comparação anual, e movimentou R$ 166,85 bilhões, alta de 3,4%[2]. Menos negócios e mais dinheiro.

A leitura imediata é a de que o mercado se concentrou. Ela está correta, mas é insuficiente. Antes de aceitá-la, convém atravessar duas armadilhas.

A primeira armadilha é a moeda

Boa parte da cobertura noticiou um crescimento de 15% no capital movimentado. O número existe, mas está em dólar. A mesma apuração, expressa em reais, registra alta de 3,4%. A diferença entre os dois percentuais não é criação de valor: é valorização do real entre os períodos comparados.

A observação parece preciosismo e não é. Quem lê 15% conclui que o mercado se aqueceu. Quem lê 3,4% percebe que o mercado ficou praticamente estável em valor enquanto perdia um terço do volume. São diagnósticos opostos extraídos da mesma base de dados. Sempre que alguém apresentar crescimento de M&A no Brasil, a primeira pergunta deve ser: em qual moeda?

A segunda armadilha é o que a estatística consegue enxergar

Os levantamentos de fusões e aquisições no Brasil não são registros oficiais. São bases privadas, montadas a partir de fontes públicas, imprensa especializada, comunicados ao mercado e, de modo relevante, do que os próprios assessores reportam para compor seu perfil na plataforma. Como esses mesmos levantamentos publicam rankings de escritórios e bancos por número de operações assessoradas, o incentivo ao reporte é evidente.

Nada disso é ilegítimo. Apenas define o que a base consegue ver. E o que ela vê mal é justamente a operação de menor porte, por três razões que se somam.

A operação pequena não divulga preço. Menos da metade das transações do semestre teve valor revelado. O negócio de menor porte pesa na contagem de volume e desaparece da contagem de valor, o que sozinho já produz parte do efeito "menos negócios, mais dinheiro".

A operação pequena não é publicada. Uma cessão de quotas entre empresas de médio porte, formalizada por instrumento particular e levada a arquivamento na Junta Comercial, não gera fato relevante, não vira comunicado e frequentemente não tem assessor interessado em constar de ranking. Para qualquer base construída sobre fontes públicas, ela não existe.

A operação pequena não é notificada. O art. 88 da Lei 12.529/2011 só exige submissão prévia ao CADE quando, cumulativamente, um dos grupos envolvidos tenha registrado receita bruta anual no país igual ou superior a R$ 750 milhões e outro grupo igual ou superior a R$ 75 milhões[3]. Abaixo desses patamares não há dever de notificar. Não existe, portanto, nem registro voluntário de mercado nem registro obrigatório do Estado.

O mercado de médio porte não desapareceu da estatística. Ele nunca esteve nela por inteiro.

Isso não invalida a tendência de concentração. Delimita o que ela pode afirmar. E abre espaço para a pergunta que realmente interessa: se a empresa média deixou de circular no mercado voluntário, para onde ela foi?

O andar de cima

A resposta começa por olhar quem comprou. Compradores estrangeiros realizaram 155 transações no semestre, movimentando R$ 58,74 bilhões, com os Estados Unidos à frente, responsáveis por 64 aquisições. Em proporção: o capital estrangeiro respondeu por cerca de um quarto das operações e por mais de um terço de todo o dinheiro. Comprou menos vezes mas comprou em valores maiores.

O private equity conta a mesma história de forma ainda mais nítida. Foram 41 operações no semestre inteiro, com R$ 33,181 bilhões, valor que mais que dobrou na comparação anual. Menos de 7% das transações concentraram cerca de 20% do capital. A maior operação do período foi a aquisição da mineradora Serra Verde por grupo norte-americano, por US$ 2,8 bilhões.

Esse andar do mercado está funcionando bem. Há capital disponível, apetite por ativo estratégico e disposição para pagar prêmio por escala, governança estruturada e previsibilidade de fluxo. Mineração, infraestrutura, energia e tecnologia madura seguem atraentes para quem investe com horizonte longo.

O andar de baixo

Enquanto isso, o Brasil fechou 2025 com 977 pedidos de recuperação judicial, envolvendo 2.466 empresas, recorde da série histórica. O primeiro trimestre de 2026 registrou 194 novos pedidos, em trajetória de alta. E o indicador antecedente é ainda mais eloquente: 8,7 milhões de CNPJs estavam negativados em janeiro de 2026, com dívida média superior a R$ 23 mil[4].

O recorte por porte confirma onde o estresse se concentra. No levantamento mais recente com esse nível de desagregação, referente ao primeiro semestre de 2024, micro e pequenas empresas responderam por 713 pedidos de recuperação judicial, as médias por 207 e as grandes por apenas 94. O capital está em cima. O estresse está embaixo, e com uma SELIC de 14%.

O que os setores revelam

A distribuição setorial reforça o diagnóstico. Internet, software e serviços de tecnologia lideraram em volume, com 104 operações, mas em queda de 39%. Bancos e investimentos recuaram 52%. O único setor relevante que cresceu foi o imobiliário, com 98 operações e alta de 17%.

A exceção imobiliária tem lógica. Em ambiente de juro elevado e visibilidade curta, o investidor prefere ativo real: ele pode ser visto, avaliado com menos margem de erro e oferecido em garantia do próprio financiamento que viabiliza a compra. Além disso, o setor comporta operações menores, por meio de fundos e sociedades de propósito específico, o que dilui o custo fixo de estruturação. Não é sinal de retomada do middle market. É preferência por colateral.

O que fazer com esse diagnóstico

Para o empresário de médio porte, a conclusão prática não é vender rápido. É preparar-se para não precisar vender mal. Três frentes concentram o retorno.

Organizar a casa antes de precisar. O comprador de 2026 desiste na auditoria prévia, não na negociação. Contabilidade auditável, contratos formalizados, passivo trabalhista e tributário mapeado e propriedade dos ativos regularizada deixaram de ser refinamento e viraram condição de acesso ao mercado.

Ter acordo de sócios de verdade. Empresa sem regra clara de saída, de sucessão, de impasse e de transferência de participação não fecha operação. E, quando o desentendimento aparece durante a negociação, o comprador simplesmente vai embora.

Tratar a dívida cedo. Reestruturação preventiva, renegociação bilateral e recuperação extrajudicial custam uma fração do que custa a recuperação judicial, em dinheiro, em tempo e em reputação. A diferença entre negociar de pé e negociar no chão costuma ser de seis a doze meses de antecedência.

Uma última observação

A estatística de fusões e aquisições descreve com precisão o Brasil que está sendo comprado. Ela não foi feita para descrever o Brasil que está sendo reestruturado, e não descreve. Por isso a leitura completa do momento econômico exige olhar dois indicadores ao mesmo tempo: o volume de transações e o volume de recuperações judiciais.

Um deles conta quem está atraindo capital. O outro conta quem está ficando pelo caminho. Os dois estão em máximas ao mesmo tempo, e é exatamente isso que torna 2026 um ano difícil de resumir em uma manchete.

A pergunta relevante não é quando o mercado volta a crescer. É quem ainda estará de pé quando ele voltar.


[1] Entrevista concedida ao Times Brasil em 5 de agosto de 2026. Disponível em: https://youtube.com/watch?v=3apQIvdNKoU&is=0MMGwaAQ0wtnb0Iq.

[2] TTR Data, relatório sobre o mercado transacional brasileiro referente ao segundo trimestre de 2026. Do total de 593 transações, 45% tiveram valores revelados e 76% estavam concluídas.

[3] Lei nº 12.529, de 30 de novembro de 2011, art. 88, incisos I e II, com os patamares majorados pela Portaria Interministerial MJ/MF nº 994, de 30 de maio de 2012, que substituiu os valores originais de R$ 400 milhões e R$ 30 milhões.

[4] Serasa Experian, Indicador de Recuperações Judiciais e Falências e Mapa da Inadimplência e Renegociação de Dívidas no Brasil.

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No Times Brasil, David Andrade Silva comenta cenário do mercado de fusões e aquisições